quarta-feira, abril 4

SAPIENS, Yuval Noah Harari. O animal que se tornou um deus

«Apesar das coisas espantosas que os humanos são capazes de fazer, continuamos sem ter a certeza dos nossos objectivos e parecemos estar mais descontentes do que nunca. Avançámos das canoas para as caravelas, para os barcos a vapor, para vaivéns espaciais - mas ninguém sabe para onde vamos. Estamos mais poderosos do que alguma vez estivemos, mas não fazemos a mínima ideia do que fazer com todo esse poder. Mas pior ainda é que os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca. Deuses autoproclamados, com apenas as leis da física para nos fazerem companhia, não somos responsabilizados por ninguém. Estamos, assim, a espalhar o caos sobre os nossos companheiros animais e o ecossistema envolvente, em busca de pouco mais do que o nosso próprio conforto e divertimento, sem, no entanto, nos darmos por satisfeitos.
Existirá algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?»
Sapiens, Yuval Noah Harari. Elsinor

sexta-feira, março 2

Hermosa


Si no canto lo que siento
Me voy a morir por dentro
He de gritarle a los vientos hasta reventar
Aunque solo quede tiempo en mi lugar

Si quiero me toco el alma
Pues mi carne ya no es nada
He de fusionar mi resto con el despertar
Aunque se pudra mi boca por callar

Ya lo estoy queriendo
Ya me estoy volviendo canción
Barro tal vez
Y es que esta es mi corteza
Donde el hacha golpeará
Donde el río secará para callar

Ya me apuran los momentos
Ya mi sien es un lamento
Mi cerebro escupe ya el final del historial
Del comienzo que tal vez reemprenderá

Si quiero me toco el alma
Pues mi carne ya no es nada
He de fusionar mi resto con el despertar
Aunque se pudra mi boca por callar

Ya lo estoy queriendo
Ya me estoy volviendo canción
Barro tal vez

Y es que esta es mi corteza
Donde el hacha golpeará
Donde el río secará para callar

sexta-feira, fevereiro 16

Brilhante Yuval Noah Harari


Voraz e profundamente inquietante. Página a página, um livro que nos provoca uma vontade irresistível de partilhar tanta e tão diversa informação. Será este livro um produto da Inteligência Artificial?

«1. Será que os organismos vivos são apenas algoritmos e a vida não é mais do que processamento de dados?
2. O que tem mais valor, a inteligência ou a consciência?
3. O que acontecerá à sociedade, à política e à vida quotidiana quando os algoritmos não conscientes mas de inteligência superior nos conhecerem melhor do que a nós próprios?»
Homo Deus, Yuval Noah Harari

segunda-feira, fevereiro 5

O gordo gato preto


Durante meses a fio, na hora de dormir, um pequeno livro, a História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar, foi o preferido das minhas filhas. Não sei quantas vezes contei esta história do chileno Luis Sepúlveda. A repetição, noite após noite, levava-me a redesenhar partes do conto, a dar uma dimensão diferente a certas personagens, a abreviar certas passagens. Mas nunca consegui alterar, sem a imediata correção e um pequeno ralhete, as etapas fundamentais da promessa do gordo gato preto, Zorbas. Quando a gaivota finalmente voava e a luz se apagava, a Inês, a mais nova, pedia-me para ficar um pouco mais. Deitava-me transversalmente aos pés dela e esperava que adormecesse. Escutava, imóvel, quase em apneia, que a respiração suavíssima se tornasse profunda, que o corpo se soltasse. Por vezes, quando em movimentos muito lentos antecipava a saída, a Inês intersectava-me com um pedido sussurrado: pai …. E eu voltava à posição inicial. Imóvel de novo. Naquela quietude, aprendi a interpretar todos os sinais vindos daqueles corpos. No silêncio, a transportar-me para um plano paralelo ao da realidade quotidiana.
Vinte anos depois, na sua casa, voltei a ficar ao lado dela à espera que adormecesse e recuperasse a energia que a faz voar tão bem. Imóvel, com os sons da cidade esquecidos, escutei durante muito tempo os mesmos sinais. 

domingo, novembro 5

Nelson Rodrigues, por Ruy Castro


Biografia aclamada por críticos e leitores. Uma referência para todos os biógrafos. Pontuações máximas. Uma grande expectativa que não saiu gorada. Já li algumas biografias, mas nunca alguma que se assemelhasse.

«Ninguém é exatamente velho aos 49 anos, mas Nelson aparentava muito mais. Era lento de gestos, pesado, sedentário. Sua fala era uma espécie de mugido arrastado, a ponto de pensarem que vivia bêbado – ele, que nunca pusera uma gota de álcool na boca. Quando se empolgava, a voz ganhava outra tonalidade e as sílabas quase se atropelavam, mas isso era raro, porque Nelson parecia carregar uma tristeza perene. Quando se sentava para escrever, os ombros caíam e ele, que não era baixo, encolhia. A visão dos suspensórios também não ajudava. O que pareciam traços de beleza na juventude tinham sido devastados pelos abalos da saúde e pelo seu estilo de vida – o rosto magro e bem desenhado lembrava agora um buldogue. E Nelson era publicamente doente. Todos sabiam que era que era tuberculoso e ele próprio encarregava-se de promover sua úlcera como se ela fosse Maria Callas. Era cardíaco, precisava de se cuidar. Tinha uma enxaqueca permanente, comum a toda a sua família. E sofria também de hemorróidas.
Quando Lúcia revelou a história a suas amigas no Country e nos lugares sofisticados que frequentavam, elas não acreditaram. Como podia interessar-se por um homem tão mais velho, feio, doente, relaxado, certamente cheio de manias e, para piorar, casado – por mais inteligente e fascinante que fosse? O choque dos amigos de Nelson não foi menor.»
O Anjo Pornográfico, Ruy Castro

segunda-feira, outubro 16

A lição de Tiago Oliveira, engenheiro florestal


Na RTP3, entre as sete e as sete e vinte, vi e revi a entrevista do engenheiro florestal, Tiago Oliveira. Num tom agastado, cansado provavelmente de repetir ano após ano as mesmas coisas, advoga a única via possível: adequar metodologias internacionais de prevenção e combate aos incêndios, tratar da vegetação durante todo o ano, vigiar os espaços, educar a população. 

domingo, outubro 8

“La verdad nos haría libres, pero preferimos la mentira porque nos hará independientes”, F. Savater


Mais uma facadinha num Projecto Europeu tão fragilizado nos últimos anos. Numa Europa que se pretendia sem muros e sem bandeiras, aparecem agora estes movimentos, o Brexit e a Catalão, absolutamente anacrónicos e incompreensíveis.

Nesta questão catalã, alinho pela análise de Fernando Savater, no El País.

quinta-feira, agosto 3

Entrevista com Souto Moura, no DN

DN

Coloco-a aqui para ser mais fácil encontrá-la.

"Se ficar feio não se resolveu o problema. O que é feio não funciona. Um avião feio cai. Um barco feio não flutua. O bonito funciona sempre. A construção responde a umas funções. Se for agradável, se as pessoas se sentirem bem, se fornecer emoções, tem essa mais-valia: deixa de ser construção e passa a ser arquitetura."