domingo, novembro 5

Nelson Rodrigues por Ruy Castro


Biografia aclamada por críticos e leitores. Uma referência para todos os biógrafos. Pontuações máximas. Uma grande expectativa que não saiu gorada. Já li algumas biografias, mas nunca alguma que se assemelhasse.

«Ninguém é exatamente velho aos 49 anos, mas Nelson aparentava muito mais. Era lento de gestos, pesado, sedentário. Sua fala era uma espécie de mugido arrastado, a ponto de pensarem que vivia bêbado – ele, que nunca pusera uma gota de álcool na boca. Quando se empolgava, a voz ganhava outra tonalidade e as sílabas quase se atropelavam, mas isso era raro, porque Nelson parecia carregar uma tristeza perene. Quando se sentava para escrever, os ombros caíam e ele, que não era baixo, encolhia. A visão dos suspensórios também não ajudava. O que pareciam traços de beleza na juventude tinham sido devastados pelos abalos da saúde e pelo seu estilo de vida – o rosto magro e bem desenhado lembrava agora um buldogue. E Nelson era publicamente doente. Todos sabiam que era que era tuberculoso e ele próprio encarregava-se de promover sua úlcera como se ela fosse Maria Callas. Era cardíaco, precisava de se cuidar. Tinha uma enxaqueca permanente, comum a toda a sua família. E sofria também de hemorróidas.
Quando Lúcia revelou a história a suas amigas no Country e nos lugares sofisticados que frequentavam, elas não acreditaram. Como podia interessar-se por um homem tão mais velho, feio, doente, relaxado, certamente cheio de manias e, para piorar, casado – por mais inteligente e fascinante que fosse? O choque dos amigos de Nelson não foi menor.»
O Anjo Pornográfico, Ruy Castro

segunda-feira, outubro 16

A lição de Tiago Oliveira, engenheiro florestal


Na RTP3, entre as sete e as sete e vinte, vi e revi a entrevista do engenheiro florestal, Tiago Oliveira. Num tom agastado, cansado provavelmente de repetir ano após ano as mesmas coisas, advoga a única via possível: adequar metodologias internacionais de prevenção e combate aos incêndios, tratar da vegetação durante todo o ano, vigiar os espaços, educar a população. 

domingo, outubro 8

“La verdad nos haría libres, pero preferimos la mentira porque nos hará independientes”, F. Savater


Mais uma facadinha num Projecto Europeu tão fragilizado nos últimos anos. Numa Europa que se pretendia sem muros e sem bandeiras, aparecem agora estes movimentos, o Brexit e a Catalão, absolutamente anacrónicos e incompreensíveis.

Nesta questão catalã, alinho pela análise de Fernando Savater, no El País.

quinta-feira, agosto 3

Entrevista com Souto Moura, no DN

DN

Coloco-a aqui para ser mais fácil encontrá-la.

"Se ficar feio não se resolveu o problema. O que é feio não funciona. Um avião feio cai. Um barco feio não flutua. O bonito funciona sempre. A construção responde a umas funções. Se for agradável, se as pessoas se sentirem bem, se fornecer emoções, tem essa mais-valia: deixa de ser construção e passa a ser arquitetura."

quarta-feira, julho 19

Café Capri

Paulo, Mendes, Júlio Brás, Luis, Cardoso, Zé Luis
Eu, Barroso, Manel Capri, Tó, Júlio

Gosto muito desta fotografia. É de pequena dimensão, doze por oito, e de uma definição surpreendente. Quarenta anos depois e os vários tons de cinzento ainda se mantêm. O Café Capri com o equipamento alternativo do Vidago Futebol Clube.
O Capri era muito mais do que um café. Três espaços bem definidos: o espaço central de muito bom gosto com uma estética dos anos sessenta; uma sala adjacente virada para o quintal da Dona Anita, ocupada por um bilhar livre, que lhe dava um tom diferenciador; e à frente, contígua à estrada nacional 2, a esplanada. E era a esplanada que pelas noites longas e abafadas de verão tornava O Capri tão agradável. Um lugar de permanência quotidiana, um lugar de passagem, um lugar de reencontros anuais. Era um local aberto e cosmopolita que espelhava o temperamento dos proprietários: da Dona Cilinha recordo a enorme tolerância de professora e a sua energia inesgotável, do Sr. Manuel, Manel Capri, a juventude permanente, a imaginação sem freio e a vontade de fazer. Mas o traço que melhor os caracterizava era o de gostarem de pessoas. E foi neste ambiente que saiu esta equipa feita em cima do joelho para uma única partida para confraternizar não sei o quê.
Tenho-a de novo à frente. Percorro cada rosto um a um, uma vez mais: reparem no Mendes (Jorge) de braços cruzados e olhar altivo, o primeiro defesa central moderno que vi. O tempo no jogo sobrava-lhe tal a clarividência que imprimia, e quem jogasse à sua frente rapidamente percebia que a bola sairia domesticada do seu brilhante jogo de cabeça. Também o Júlio Brás estava habituado a competir, nota-se na segurança com que nos olha. Era um exímio jogador de golfe, várias vezes campeão do clube, que arrastava atrás de si em matchplays históricos contra jogadores de outros clubes dezenas de pessoas pelo relvado do Campo de Golfe de Vidago. Metódico, persistente, com uma técnica apuradíssima, usava os mesmos princípios na sua função de ponta de lança – eficácia com o menor esforço. O Zé Luis e o Mário Barroso também eram handicaps baixos. Não me lembro de jogarem futebol, mas recordo claramente a tenacidade, a voz clara e assertiva do primeiro e a enorme gentileza do Barroso. Eu e o meu grande amigo Tó eramos os mais novos deste grupo. O Tó jogou a defesa direito tanto neste jogo como nos juniores do clube. Nunca foi outra coisa senão isso – direito, direto, justo. Ao lado dele, o Júlio. O Júlio, vejam bem, tinha uma Honda CB 200 vermelha naquele tempo de motorizadas e tal como a mota toda a sua anatomia estava preparada para a velocidade e para os recordes. Corria, saltava, lançava como ninguém. Júlio, porque não vais ao Sporting? Sorria com uma indiferença juvenil como se o tempo não corresse também. Quanto ao guarda-redes, era óbvia a escolha: a baliza só podia estar ocupada por quem tinha estampa e de todos os que frequentavam o Café Capri o Paulo Veiga era o único que preenchia todos os requisitos: altura, voluntarismo e uma confiança transbordante. O meu irmão jogou à bola desde miúdo e jogava muito bem, mas dá-me ideia que sempre preferiu a autenticidade dos grandes jogos que só a infância permite. E por fim o Mário Cardoso. Tenho a certeza de que quem subia a ermida até ao pelado João Oliveira ia para ver a performance do Mário Cardoso. Valdano, jogador argentino do Real Madrid e em tempos colunista do El País, disse que o «futebol é engano: aparenta uma coisa para acabar fazendo outra». O Mário era o futebol. Criava futebol. Reparem na ansiedade que lhe trespassa o rosto como um ator antes de entrar em cena. Com o Mário em palco os adeptos vidaguenses para lá de aplaudir e gritar faziam uma coisa nunca vista, riam à gargalhada solta! O futebol do Cardoso era assim mesmo: teatral, tecnicamente perfeito, absolutamente desconcertante. 
Ficava-nos bem o preto do Café Capri

terça-feira, julho 11

Sílvia Pérez Cruz e Cástor Pérez - Veinte años



¿Qué te importa que te ame
Si tú no me quieres ya?
El amor que ya ha pasado
No se debe recordar
Fui la ilusión de tu vida
Un día lejano ya
Hoy represento al pasado
No me puedo conformar
Hoy represento al pasado
No me puedo conformar
Si las cosas que uno quiere
Se pudieran alcanzar
Tú me quisieras lo mismo
Que veinte años atrás
Con qué tristeza miramos
Un amor que se nos va
Es un pedazo del alma
Que se arranca sin piedad
Es un pedazo del alma
Que se arranca sin piedad

sábado, julho 8

Tancos, ao contrário de tantos…


... sinto-me agora mais seguro. Mais seguro por saber que o General Rovisco Duarte continuará como chefe do Estado-Maior do Exército. Assumiu sem tibiezas uma responsabilidade evidente, agiu com rapidez no apuramento das responsabilidades operacionais, foi parco em palavras como o momento exigia. 

segunda-feira, junho 19

Três bolinhos de bacalhau


Março, 1900
"E um dia, ao saber Camilo cético, Camilo com noites de sombrio desespero, palpando a coronha do revólver, não foi de propósito procura-lo para lhe pregar Deus?
Era numa dessas tardes de Seide, de que o grande escritor fala nos Serões. A natureza chorava revolvida: a acácia de Jorge batia-lhe devagarinho nos vidros. Quem é que o chama? Atormentado de dores, ouve vozes, vê fantasmas, e sai do horror com blasfémias e sarcasmos. Junqueiro encontra-o mergulhado na dolorosa tinta do crepúsculo, com a pala com que escrevia sobre os olhos, absorto, calado, desesperado, o rosto marcado de dedadas, «esboçado numa argila cor de mel», segundo o retrato de Ricardo Jorge. Eu tinha-lhe medo… O poeta tenta arranca-lo ao negrume, que o envolve: desenrola teorias, explicações, argumentos; ataca-o a fundo, persuade-o talvez… Já o julga abalado e convertido, quando dessa figura, só osso e dor, saem enfim estas palavras irónicas:
- …Sim, sim, Junqueiro você convencia-me se eu não tivesse ainda no estômago, desde o almoço, três bolinhos de bacalhau, que me estão aqui como três Voltaires."

Raúl Brandão, Memórias, Quetzal 

terça-feira, junho 13

Lamento Sertanejo


Há muitas interpretações desta composição de Dominguinhos / Gilberto Gil, mas nenhuma como este voluptuoso e lânguido lamento de Mayra Andrade.


Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga do roçado.
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado.

Por ser de lá
Na certa por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo.
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada caminhando a esmo

terça-feira, junho 6

Três dias em Londres



É difícil descrever estes três dias em Londres. Fico-me apenas por sensações, observações condicionadas e, certamente, por generalizações precipitadas. Retive: do arejado aeroporto de Heathrow ao claustrofóbico metro; a irreversibilidade de uma enorme metrópole multiétnica e a beleza surpreendente de tantos, fruto de cruzamentos genéticos; os milhares de turistas chineses padronizados e a extravagância diferenciadora dos jovens londrinos; os bairros históricos com a sua vida tão peculiar, a contrastar com a gélida e deselegante City de jovens de fato cinzento; o bulício caótico em larga escala e a certeza de um fim de tarde retemperador pelos pubs ou pelos parques; o enorme património histórico que lhes estrutura a civilidade; e no sábado terrorista, o regozijo com a vitória do Real de Ronaldo quebrado abruptamente pelo som dos helicópteros e das sirenes.